Cobertura nacional
Onde fotografamos
Fotógrafos locais verificados em doze cidades e destinos portugueses. Sabem a que hora um sítio ainda está vazio e quanto custam de facto as autorizações.
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Grande Lisboa
Lisboa
Tudo o que diz respeito a fotografar aqui decorre da orientação. As colinas de Alfama e da Graça olham para norte e para nascente por cima dos telhados e aguentam luz utilizável do nascer do sol até cerca das nove, depois achatam; a frente ribeirinha, do Cais do Sodré a Belém, olha ao contrário e só compensa depois das seis. Trocar as voltas a isto é a maneira mais comum de desperdiçar uma sessão na cidade, e acertar não custa nada. A segunda coisa é a calçada. É calcário polido, escorrega mesmo, e está em declive em quase todos os sítios que valem a pena — o que é uma decisão de calçado, não um detalhe bonito. A terceira é que o centro é pequeno: da Graça às Portas do Sol e daí a Alfama são vinte minutos a pé, por isso noventa minutos dão três fundos distintos sem ninguém entrar num carro.
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Porto
O Porto é uma cidade de duas margens e as duas nunca estão boas ao mesmo tempo. Do cais de Gaia, toda a fachada da Ribeira apanha luz de frente entre as oito e as onze da manhã; da Ribeira, Gaia e as caves ficam com as duas últimas horas de sol. Uma sessão que queira as duas coisas é uma sessão que precisa do tabuleiro superior da Luís I e de dez minutos para o atravessar — e convém saber que por esse tabuleiro passa o metro, ou seja, anda-se ao lado de uma linha em serviço, não numa passagem pedonal. O resto são interiores, e é nos interiores que estão as condicionantes. São Bento é gratuito, é extraordinário, e é também uma estação a funcionar, cheia a partir das oito. A Livraria Lello cobra entrada e restringe a fotografia, e a política já mudou mais do que uma vez — confirma-se antes de prometer, nunca depois.
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Cascais
A linha do Cais do Sodré corre junto à água todo o percurso, e é essa a razão prática por que Cascais resulta: não há transbordo, não há estacionamento e não há discussão sobre quem conduz. Chega-se a uma vila com baía, marina, uma marginal oitocentista e, dez minutos a poente, uma costa atlântica a sério no Guincho, onde o vento é outra conversa. O que aqui se faz sobretudo é trabalho para estrangeiros residentes e segundas habitações — sessões de família, retratos corporativos de quem vai a Lisboa dois dias por semana, e a ponta mais pequena do mercado dos casamentos. A baía está virada a sul, o que é invulgar nesta costa, e por isso aguenta luz até mais tarde de manhã do que qualquer sítio de Lisboa e é dos poucos locais aqui utilizáveis ao meio-dia.
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Braga
O Minho é o mercado de casamentos mais denso do país e Braga é o seu centro — uma cidade de igrejas com uma quinta em cada estrada que dela sai, reservadas com um ano de antecedência para os sábados entre Maio e Setembro. É um mercado interno com exigências internas: um dia inteiro, dos preparativos à primeira hora da festa, uma cerimónia religiosa com regras próprias sobre onde o fotógrafo pode estar, e um copo-d’água que se prolonga. O Bom Jesus do Monte, na encosta acima da cidade, é o enquadramento que toda a gente conhece: um escadório barroco a subir em ziguezagues de pedra e água, com um elevador a funcionar ao lado desde 1882. É também um lugar de culto e Património Mundial, e está cheio todos os domingos do ano.
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Coimbra
Coimbra tem um mercado de fotografia que não existe em mais lado nenhum, e nada tem a ver com turismo. As tradições académicas — a capa e batina, as fitas com as cores das faculdades, a Queima das Fitas em Maio e a Latada no início do ano lectivo — produzem uma época inteira de sessões com código de vestuário próprio, locais próprios e semana própria no calendário. Os finalistas marcam em grupo, marcam tarde, e querem todos as mesmas duas horas de luz. A cidade é uma colina com uma universidade em cima, o que faz com que o terraço do Paço das Escolas olhe para tudo e tudo olhe para a torre. O Mondego, em baixo, dá o único local plano e aberto, e a outra margem dá o enquadramento da colina inteira.
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Évora
Évora é o argumento a favor do pequeno. O centro histórico está todo dentro da muralha, e do templo romano à Sé, à Praça do Giraldo e ao aqueduto é um passeio e não um exercício de logística. Uma sessão de noventa minutos aqui cobre mais fundos distintos do que três horas em Lisboa, porque nada do tempo se gasta a mudar de sítio. O que custa é a sombra. O Alentejo é a zona mais quente do país e as ruas são estreitas e brancas, o que faz com que de Junho a Setembro o meio do dia não seja apenas desconfortável, seja inutilizável — o contraste entre uma parede caiada ao sol e a mesma parede à sombra está acima do que qualquer sensor aguenta. A compensação é que a luz nos dois extremos do dia é a mais limpa de Portugal.
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Sintra
Quase tudo o que se escreve sobre fotografar Sintra erra nas contas. A Pena, Monserrate e o Castelo dos Mouros são geridos pela Parques de Sintra – Monte da Lua, que exige autorização escrita e cobra taxa para fotografia profissional e comercial lá dentro; a Quinta da Regaleira é outro operador, com autorização e taxa próprias, o que apanha desprevenido quem assuma que um acordo cobre a vila toda. A Pena tem ainda entrada por horário, portanto é o bilhete que manda no plano, não a luz. O que ninguém vende é que a serra em si — as estradas, os fetos, o nevoeiro entre as árvores, o alto acima de Seteais — é aberta e não custa nada, e é lá que se fazem as fotografias que de facto parecem Sintra. O segundo facto prático é o trânsito: em época alta o centro histórico está praticamente vedado a carros particulares, e são os autocarros 434 e 435 e a falta de estacionamento, não o nascer do sol, que decidem a que horas a sessão pode começar.
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Algarve
O Algarve é um mercado só, não são seis. Lagos e Albufeira estão a quarenta minutos um do outro, as praias entre os dois são fotografadas pelas mesmas pessoas nas mesmas manhãs, e separá-los em páginas distintas daria duas descrições da mesma costa. O que varia não é a vila, é a maré: metade dos melhores locais — as grutas, os arcos, as praias a que se chega pela areia — está acessível numa parte do dia e não no resto, e uma sessão marcada sem olhar à tabela de marés é uma sessão que pode encontrar o local debaixo de água. A segunda condicionante são as próprias arribas. As falésias estão em erosão activa, os bordos caem, e os avisos estão lá porque já houve quem caísse. Qualquer fotografia que pareça tirada da beira de um precipício foi tirada de mais atrás com uma objectiva mais longa, e as que não foram não valem o que custam.
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Madeira
A Madeira vende-se como Funchal e fotografa-se em todo o resto. A ilha é um vulcão com uma estrada à volta e uma crista ao meio, e o que a torna digna do voo é que a crista está quase sempre acima das nuvens: no Pico do Arieiro, ao nascer do sol, está-se em sol limpo a olhar para um chão de nuvem com dois outros picos a atravessá-lo. É um sítio específico a uma hora específica, e o pequeno parque de estacionamento lá em cima enche muito antes de o sol nascer. O resto da ilha divide-se por tempo. O Fanal, a laurissilva no planalto a noroeste, só resulta com nevoeiro — num dia limpo é um campo com árvores — o que faz dele o único local que se remarca de verdade em vez de se esperar pelo melhor. Várias levadas passaram a ter entrada paga através da autoridade florestal, e quais mudam, por isso confirma-se em vez de se assumir. E a nota honesta para quem marca sessão de praia: a Madeira quase não tem areia. O Porto Santo, a quarenta minutos de avião, tem nove quilómetros dela.
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Açores
São Miguel tem quatro estações numa tarde, e todos os conselhos sobre fotografar aqui decorrem de aceitar isso em vez de discutir com isso. Uma sessão presa a uma data e a um local vai, com frequência suficiente, encontrar esse local dentro de uma nuvem. Uma sessão que reserve uma janela de três dias e decida na véspera de manhã fica com aquilo a que veio. A versão prática disto é planear locais como alternativas e não como lista. As Sete Cidades e a Lagoa do Fogo estão em lados opostos da ilha e é vulgar uma estar limpa e a outra não, por isso são um par e não dois passeios. As Furnas, no meio, funcionam com quase qualquer tempo, porque vapor e verde molhado não precisam de sol. As páginas que prometem uma caldeira específica a uma hora específica estão a escrever sobre outro sítio.
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Douro
Em todo o lado a pergunta de planeamento é a que horas. No Douro é em que semana. A vindima corre sensivelmente do início de Setembro a meados de Outubro, mais tarde no Douro Superior do que no Baixo Corgo, e é a única altura em que os socalcos têm gente a trabalhar e as quintas cheiram a fruta e não a pedra. Fora dela o vale é bonito e vazio; durante ela é uma região agrícola em pleno e todas as quintas estão ocupadas, o que quer dizer que o acesso se combina em vez de se assumir e que os fins-de-semana de Setembro esgotam com um ano de antecedência. A paisagem são socalcos abertos no xisto, Património Mundial como paisagem cultural desde 2001 — o que importa não pelo selo mas porque é a descrição certa: isto é um sítio que as pessoas fizeram, não um sítio que aconteceu. Os enquadramentos são as vistas longas do alto, em São Leonardo de Galafura, e o próprio rio no Pinhão.
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Comporta
A Comporta são sessenta quilómetros de areia com quase nada construído, e atrás da duna uma paisagem plana de arrozais, pinhal e sobreiro. É o mercado mais pequeno deste site e o de maior valor: um canto de segunda habitação de luxo e casamentos de destino com pouquíssima concorrência em inglês, o que é invulgar num sítio tão fotogénico. O que oferece fotograficamente é espaço e simplicidade. A praia corre sem interrupção o suficiente para que uma sessão nunca tenha mais ninguém no enquadramento, os arrozais alagam e espelham o céu na Primavera, e a arquitectura local é rasa, branca e de colmo, o que é fundo e não distracção. O que não oferece é seja o que for para fazer quando o tempo muda — não há vila velha para onde recuar — por isso uma marcação de Inverno faz-se com isso entendido.
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Sobre estes sítios
Doze sítios, e três deles não são cidades
- Cidades & destinos
- 12
- Cidades
- 6
- Destinos de viagem
- 6
- Suplemento de deslocação
- Nenhum
Seis cidades onde se vive e trabalha — Lisboa, Porto, Cascais, Braga, Coimbra e Évora — e seis sítios para onde se viaja: Sintra, Algarve, Madeira, Açores, Douro e Comporta. Três do segundo grupo não são cidades, e dizê-lo importa: o Algarve é uma costa, a Madeira e os Açores são ilhas, e tratar qualquer um deles como uma vila dá a página errada.
O Algarve é uma página e não seis porque Lagos e Albufeira estão a quarenta minutos um do outro e vendem o mesmo trabalho às mesmas pessoas nas mesmas manhãs. Separá-los daria duas descrições da mesma costa, a concorrer uma com a outra pela mesma pesquisa. A mesma lógica faz da Madeira a página em vez do Funchal: dorme-se no Funchal e a fotografia é a mil e oitocentos metros.
O que cada página traz é aquilo que um fotógrafo de fora não saberia. Para onde está virado um miradouro e portanto a que hora resulta. Se um local precisa de autorização escrita e de quem — Sintra tem dois regimes distintos, porque a Quinta da Regaleira não é gerida pela Parques de Sintra. Se é a maré que decide se a praia existe. Em que semana cai a vindima no Douro, que ninguém lhe diz em Março.
Cada sítio é coberto por um fotógrafo que lá vive, e cada página lista as localidades cobertas a partir dele sem suplemento de deslocação, em vez de lhes dar páginas próprias sem conteúdo.