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Planeamento

O que vestir numa sessão em Portugal

Sapatos rasos para a calçada polida, cores que resultam contra azulejos e fachadas amarelas, roupa para o vento da costa e uma lista para casais e famílias.

Pelos fotógrafos Luzia8 min

Um casal de calças de ganga e casacos escuros junto a um eléctrico amarelo na Praça da Figueira, em Lisboa

A maior parte dos conselhos sobre roupa para sessões fotográficas é escrita a pensar num parque ou num estúdio, onde o chão é plano e o fundo é verde ou cinzento. Portugal não é nem uma coisa nem outra. O chão é pedra polida em declive, as paredes são azulejo azul, ocre, cor-de-rosa ou branco, e na costa há quase sempre vento. Nada disso torna a escolha mais difícil, mas muda o que resulta, e quase tudo se decide na véspera e não no próprio dia.

Primeiro os sapatos: a calçada

O passeio em Lisboa, e nos centros históricos de Cascais, de Sintra e de boa parte do país, é calçada portuguesa: pequenos cubos de calcário branco, com basalto negro nos desenhos, assentes à mão. Décadas de passos poliram o calcário, e escorrega com qualquer tempo. Em Lisboa está, além disso, em declive em quase todos os sítios que valem a pena, e no Porto as ruas que sobem da Ribeira são granito a pique.

Isso exclui os saltos agulha, não por uma questão de estilo mas porque um salto fino prende entre as pedras e uma sola de couro desliza nelas. O que funciona:

  • Sola rasa de borracha para andar. Ténis, mocassins com sola de borracha, sandálias rasas com tira atrás.
  • Salto largo ou compensado, se os saltos fizerem parte do visual, e só para as fotografias que os pedem.
  • Os sapatos bons num saco. Anda-se entre locais com calçado confortável e troca-se para as fotografias em que os sapatos se vêem. Boa parte da sessão é feita em movimento, e sapatos novos que apertam notam-se na maneira de andar.

Numa sessão em Lisboa isto conta a dobrar. Um percurso de noventa minutos da Graça até Alfama inclui vinte minutos a pé sobre pedra inclinada, e é aí que uns sapatos maus deixam de ser um pormenor.

Cores que resultam contra os fundos portugueses

Os fundos aqui são fortes e muito concretos, e decidem o que se lê bem à frente deles. A regra geral é simples: cores lisas em tons médios, sem logótipos nem letras grandes, e nada que seja exactamente da cor da parede contra a qual se vai estar.

Azulejos

As fachadas de azulejo, e interiores como a estação de São Bento, são sobretudo azul e branco, muitas vezes com padrões carregados. Uma camisa estampada contra uma parede estampada passa a ser uma só superfície, e um azul forte desaparece lá dentro. Cores quentes e lisas, como ferrugem, terracota, mostarda, verde-azeitona, creme ou camelo, separam-se do azulejo azul com limpeza. O branco também, desde que não seja branco vivo ao sol forte.

Fachadas amarelas, cor-de-rosa e ocre

Lisboa e o Porto têm ruas inteiras pintadas de amarelo, ocre, cor-de-rosa e verde-claro. Uma blusa amarela contra uma parede amarela é a forma mais comum de desaparecer da própria fotografia. Contra paredes quentes resultam cores frias ou neutras: ganga e azuis suaves, verde-salva, cinzento, branco, azul-marinho. Uma parede de cor forte também reflecte essa cor na pele quando se está perto, o que é mais uma razão para não a repetir na roupa.

Calcário branco, cal e Atlântico

Belém, o Alentejo e o Algarve são pedra clara e paredes caiadas ao sol forte, e a roupa branca viva perde o pormenor no mesmo ponto em que a parede o perde. Marfim, cru e cor de pedra aguentam textura onde o branco puro não aguenta. Na costa, o azul já vem com o mar e o céu: azul-marinho ou azul-claro podem ficar bem, mas é uma cor quente, terracota, ferrugem ou amarelo, que separa a pessoa do horizonte em Cascais ou nas arribas do Algarve.

O que evitar em qualquer sítio:

  • Riscas finas, xadrez pequeno e espinha-de-peixe apertada. Tremem no ecrã, o chamado efeito moiré, e não há retoque que o tire.
  • Néon e cores muito saturadas, que se reflectem na cara e puxam o olhar para longe dela.
  • Logótipos e frases grandes. Datam uma fotografia mais depressa do que qualquer outra coisa que lá esteja.
  • Tecido cinzento ou azul-claro que mostre o suor, em qualquer sessão entre Junho e Setembro.

Vento: cabelo, vestidos e chapéus

Na costa atlântica o vento faz parte do plano. Do fim da Primavera ao início do Outono, a nortada cresce durante a tarde na costa oeste; o Cabo da Roca tem vento quase todos os dias, e na Praia do Guincho a tarde é inutilizável em boa parte do ano. Mais vale vestir-se para isso do que ter esperança.

  • Vestidos compridos e leves, de chiffon ou algodão fino, vão voar. Isso pode dar a melhor fotografia do dia ou pode enrolar-se nas pernas a sessão inteira. Um midi com algum peso, ou com forro, mexe-se sem mandar.
  • Saias curtas e arribas são uma combinação para pensar antes.
  • Chapéus de aba larga voam. Se fizerem parte do visual, traga-os para uma fotografia abrigada e leve-os na mão no resto.
  • Cabelo comprido vai para a cara. Um elástico no pulso, e uma ou duas fotografias com o cabelo apanhado, dão alternativas. O cabelo solto fotografa-se melhor com o vento pelas costas, e isso é uma questão de posição para nós, não de penteado para si.

Se a sessão for na costa no Verão, marque-a de manhã. A melhor altura para fotografar em Portugal explica porque é que a tarde costuma ser a metade errada do dia.

Casais e famílias: combinar, não igualar

Camisas brancas iguais e calças de ganga para quatro pessoas é o visual que envelhece mais depressa, e achata toda a gente numa só forma. A alternativa é uma paleta comum:

  1. Escolha duas ou três cores que fiquem bem juntas, mais um neutro: creme, ferrugem e ganga, por exemplo, ou azul-marinho, verde-salva e cor de pedra.
  2. Dê a cada pessoa uma combinação diferente, para ninguém ir vestido igual.
  3. Deixe uma só pessoa com padrão, se houver algum, e em escala grande.
  4. Mantenha toda a gente no mesmo grau de formalidade. Uma pessoa de fato ao lado de outra de calções parecem duas fotografias diferentes.
  5. Ponha a roupa toda junta em cima da cama na véspera e olhe para ela, ou tire-lhe uma fotografia com o telemóvel.

Com crianças, o conforto importa mais do que a roupa. Roupa que aperta ou pica aparece nas fotografias como uma criança que se quer ir embora, e numa sessão de família com crianças pequenas o tempo antes de a disposição mudar é curto. Leve uma muda de roupa para a criança com mais probabilidade de encontrar uma poça ou um gelado.

Nos casais a regra é a mesma em ponto pequeno: duas pessoas em cores que se completam, não na mesma cor. Numa sessão de casal anda-se a pé durante parte dos noventa minutos, por isso a regra dos sapatos conta duas vezes.

Retratos de estúdio

Um retrato de estúdio é a única sessão em que a roupa faz mais trabalho do que o sítio, porque não há sítio: há um fundo, uma luz e a pessoa. Leve duas ou três peças lisas em tons médios, mais aquilo que veste de facto para trabalhar em vez do que acha que um retrato exige. Riscas finas e xadrez pequeno ficam em casa, pela razão que já se viu. O branco muito vivo e o preto muito fechado perdem pormenor ao lado da pele, e os tons médios dão mais margem. O decote conta mais do que o costume num enquadramento de cabeça e ombros: uma gola redonda, um V simples ou um colarinho enquadram a cara melhor do que um decote carregado. A sessão tem dois esquemas de luz e dois fundos, e uma segunda peça dá um segundo visual sem gastar mais tempo.

Manhãs, camadas e igrejas

Uma sessão de manhã no Verão começa fresca. Às sete, em Lisboa, uma camisa pode chegar. Em Sintra, onde a serra segura nuvem que Lisboa nunca vê, está bastante mais frio e húmido, e no alto do Pico do Arieiro, na Madeira, antes do nascer do sol, faz frio mesmo em Julho. Leve uma peça por cima com que goste de ser fotografado, como um casaco de ganga, uma malha, uma sobrecamisa de linho ou uma gabardina, em vez de um polar que tem de sair em cada fotografia. O linho é o tecido do Verão português mas amarrota no carro a caminho, o que quase não se nota a andar e se nota mais num retrato de perto.

As igrejas são o outro sítio onde uma peça a mais compensa. Portugal é descontraído nisto e a maior parte das igrejas não impõe nada, mas ombros e joelhos tapados são a norma de educação lá dentro, e num batizado ou num casamento com missa quem define o tom é a paróquia, não o fotógrafo. Um lenço leve ou um xaile no saco resolve a questão em dez segundos. Se a sessão incluir a Sé de Braga, a Sé de Lisboa ou a igreja dos Jerónimos, escolha uma roupa que funcione com o lenço e sem ele.

Lista para a véspera

  • Sapatos rasos com aderência para andar; os bons num saco
  • Duas ou três cores lisas em tons médios, nenhuma igual ao fundo principal
  • Nada de riscas finas, xadrez pequeno, néon ou logótipos grandes
  • Marfim ou cru em vez de branco vivo, para o sol forte e o calcário
  • Tecido com algum peso, ou com forro, para a costa
  • Um elástico para o cabelo, e chapéu só para uma fotografia abrigada
  • Uma peça por cima que fique bem na fotografia, para manhãs, Sintra e Madeira
  • Um lenço ou xaile se houver igreja no percurso
  • Famílias: uma paleta comum e uma muda de roupa para cada criança pequena
  • Estúdio: duas ou três peças lisas, e o que veste para trabalhar
  • Tudo junto em cima da cama, e visto com atenção, antes de ir dormir

Se não tiver a certeza de que uma peça resulta num sítio concreto, envie-nos uma fotografia dela quando fizer a reserva e diga-nos onde é a sessão. Mudar de roupa na véspera é muito mais fácil do que a meio de uma ladeira em Alfama.

Perguntas frequentes

Que sapatos devo usar na calçada de Lisboa?
Sapatos rasos com sola de borracha e alguma aderência. O calcário está polido e escorrega com qualquer tempo, e a maior parte dos melhores sítios de Lisboa é em declive. Se a roupa pedir saltos, leve-os num saco e troque para as fotografias em que se vêem; evite saltos agulha, que prendem entre as pedras.
Que cores ficam melhor nas fotografias em Portugal?
Tons médios lisos que contrastem com o fundo em vez de o repetirem. Cores quentes como ferrugem, mostarda, verde-azeitona e creme destacam-se contra o azulejo azul e o mar, e azuis suaves, verde-salva e branco resultam contra fachadas amarelas e cor-de-rosa. Evite riscas finas, xadrez pequeno e néon.
Casais e famílias devem ir vestidos iguais?
Combinados, não iguais. Escolha duas ou três cores e um neutro, dê a cada pessoa uma combinação diferente e mantenha toda a gente no mesmo grau de formalidade. Roupa igual achata um grupo numa só forma e envelhece depressa.
O que devo vestir para um retrato de estúdio?
Duas ou três peças lisas em tons médios, mais aquilo que veste de facto para trabalhar. Riscas finas e xadrez pequeno tremem no ecrã e não há retoque que tire isso. A sessão usa dois fundos, por isso uma segunda peça dá um segundo visual.
É preciso tapar os ombros numa igreja portuguesa?
A maior parte das igrejas em Portugal não impõe código de vestuário, mas ombros e joelhos tapados são a norma de educação lá dentro. Num batizado ou num casamento é a paróquia que define as regras, incluindo as da fotografia. Um lenço leve no saco é a resposta fácil.